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Há mais de vinte anos que luto
contra as dores que se instalaram no meu corpo. Umas vezes generalizadas outras
vezes localizadas em áreas como o pescoço, ombros, coluna lombar, etc. São dores
que produzem um mal-estar geral, parecendo uma queimadura, ou picadas, ou
formigueiros ou transformando-se em dores lancinantes acompanhadas de
espasmos.
Acordo muitos dias com uma
fadiga intensa, mesmo tendo dormido toda a noite, ao levantar-me parece-me que
um camião me passou por cima. Frequentemente surge rigidez matinal. A rigidez
pode ainda manifestar-se quando permaneço sentada ou de pé durante algum tempo,
bastando para tal uma meia hora!
Sempre tive hipersensibilidade
ao toque, bem como perturbações gastro-intestinais. As alergias têm-se vindo a
multiplicar, relacionadas com vários alimentos (citrinos, bananas, morangos,
agriões, mel, chocolate, carne de porco e seus derivados, como as margarinas,
etc). O “síndrome das pernas inquietas” acompanhou-me sempre, desde que me
conheço, tendo-se agravado na fase da menopausa. O frio tornou-se um suplício,
pois há circunstâncias em que me parece que nada irá conseguir aquecer-me.
Os sintomas, com frequência
variam em relação à hora do dia, podendo ter maior incidência matinal,
agravando-se com a actividade física, com mudanças climáticas, com noites de
insónia, com situações de stress.
Tornou-se difícil e muito
penoso, para mim, o desenvolvimento das minhas actividades de vida diária
(higiene, vestir, etc). Passei a evitar reuniões de trabalho, actividades de
secretariado e ao computador, ir ao cinema, assistir a eventos, fazer viagens,
isto é, situações que me impedissem de mudar de lugar ou de posição livremente.
Tinha uma actividade intensa
familiar, profissional, social e desportiva. Uma garra, uma força e alegria de
viver que me ajudavam a transpor todos os obstáculos, acompanhadas de
perfeccionismo, persistência e dádiva aos outros que, repentinamente, se foram
esfumando e culminaram numa crise dolorosa, numa imobilização prolongada e numa
profunda depressão. Esta, ocasionada por me ver incapacitada, por não encontrar
tratamento eficaz para aliviar as dores, por sentir que alguns médicos não davam
credibilidade às minhas queixas, mas acima de tudo, porque desconhecia o
diagnóstico, ninguém me dizia o que eu tinha! Afinal o que tenho eu? O que se
passa comigo?
Fui operada à coluna, a qual
foi um sucesso, mas as dores cada vez se agravavam mais. Submeti-me durante mais
de dez anos, a fisioterapia, hidroterapia, acupunctura, ginástica de
estiramento, yoga, dietas para emagrecer, a múltiplos exames, infiltrações,
terapêutica anti-inflamatória, anti-alérgica, miorrelaxante ...
Todos os exames e análises
eram normais, mas as dores continuavam e cada vez mais insuportáveis, a minha
personalidade alterou-se, tornei-me uma pessoa revoltada e sempre irritada, ao
ponto de me passar pela cabeça pôr termo à vida!?
A ansiedade começou a
instalar-se, bem como a depressão, comecei a ter perturbações da atenção, da
concentração e da memória, a não suportar ambientes buliçosos e em situações de
conflito a surgirem dores de cabeça, tipo enxaqueca e grande instabilidade. Sem
resposta para as minhas angústias, sem alívio das dores, sem um diagnóstico que
afastasse o fantasma de ter um cancro, incompreendida pela família, amigos e
colegas. De médico em médico (neurofisiatra, neurocirurgião, neurologista,
ortopedista e psiquiatra) saturada de tudo isto, a vida tornou-se um inferno e
deixou de me interessar.
Mas, num relâmpago tudo se
tornou claro e evidente! Num fim de tarde, enroscada no sofá, dormitando e tendo
por fundo o som da TV, chamou-me a atenção a história de alguém que estava a ser
entrevistada. Era uma mulher jovial, de meia idade, de olhos verdes muito
expressivos, minha homónima, que fora professora como eu e cuja história de vida
que descrevia, surpreendentemente, parecia a minha. Ela tinha fibromialgia!
Pouco tempo depois,
finalmente, foi-me também diagnosticada fibromialgia grave instalada há
mais de vinte anos, através da história clínica e observação médica do
neurologista, que pôs em evidência os 18 pontos dolorosos, associados à fadiga,
às perturbações acentuadas do sono, alterações emocionais, isto é, de acordo com
os critérios de diagnóstico estabelecidos pelo American College of
Reumatology (1990).
Graças ao conhecimento do
diagnóstico (Fibromialgia):
»Iniciei um tratamento bem
direccionado para os sintomas, mudei completamente a minha vida familiar,
interrompi a minha actividade profissional e aprendi a lidar comigo mesma, com
os outros e com as circunstâncias.
»Procurei documentar-me e
compreender a doença, de forma a desenvolver em mim as competências necessárias
para lidar com a dor e os problemas que se renovam dia a dia.
»Decidi encontrar um novo
ritmo de vida, uma nova forma de estar e, acima de tudo, viver o dia de hoje
plenamente e a empenhar-me no futuro em vez de me debruçar e lamentar o passado.
»Seleccionei e passei a
desenvolver actividades sensoriais e intelectuais compatíveis com as minhas
capacidades, tendo em conta que esta doença é cíclica.
»Aprendi a lidar com a dor e a
conviver com ela, faseando todas as actividades diárias, por mais pequenas que
sejam. Tendo sempre em mente que mesmo um pequeno esforço, mas com alguma
duração (ex: falar ao telefone) pode desencadear dores muito fortes.
»Passei a fazer só aquilo que
posso fazer, quando posso e como posso, não permitindo que os outros tenham pena
de mim ou façam o que eu penso poder fazer.
»Aprendi a ter coragem de
dizer “não” às exigências dos outros, mesmo quando esse “não” me parte o
coração!
»Sempre que necessito sei que
encontro todo o apoio incondicional do médico que me fez o diagnóstico, o que me
acompanhou ao longo destes anos e a médica escolar da minha instituição de
trabalho. Sei que posso contar com o médico de família e com a sua equipa, com
Associação Portuguesa de Doentes com Fibromialgia. Mas, acima de tudo, que devo
contar comigo própria e ter confiança em mim mesma, nas minhas competências e só
assim “serei capaz de vencer a dor”.
»Entreguei-me de alma e
coração à Associação, contactando com pessoas que têm problemas semelhantes aos
meus e partilhando as experiências positivas, os êxitos face à doença. Tornei-me
útil aos outros no sentido de melhorar a sua qualidade de vida e, assim, minorar
o seu sofrimento.
Maria Fernanda Figueiredo
Guerra
Professora da Escola Superior de
Enfermagem de Coimbra.
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