Factores Individuais e Contextuais Que Promovem a Adaptação Psicológica à Fibromialgia - Dra. Paula



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A fibromialgia é muitas vezes acompanhada por perturbações psicológicas nomeadamente depressão, ansiedade, stress acentuado, o que, frequentemente, contribui para o aumento do mal-estar vivenciado pelos doentes.

O grau de adaptação à doença, ou seja a maior ou menor capacidade que o doente manifesta para lidar com os obstáculos que enfrenta (aos níveis físico, psicológico, social,…) desempenha um papel relevante no aparecimento e manutenção de perturbações ao nível psicológico. Por sua vez, a existência prévia, ou não, destas últimas também pode influenciar o modo como o doente enfrenta a doença.

De facto, um acontecimento de vida gerador de muito sofrimento e que, à partida, é visto como extremamente negativo, como é o caso do aparecimento de uma doença como a fibromialgia, pode vir a tornar-se uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e relacional para o doente e para aqueles que o rodeiam. Assim, as pessoas podem vir a relatar mudanças positivas na sua vida e começar a funcionar a níveis mais complexos do ponto de vista psicológico o que se reflecte, por exemplo, em mudanças do estilo de vida. Tudo depende da forma como lidam com a situação e dos apoios exteriores que podem, ou não, usufruir.

Mas então o que é que contribui para que os indivíduos quando se deparam como a mesma situação (a fibromialgia) reajam de forma diferente (lidam de forma diferente com a doença) e os resultados sejam diferentes (umas pessoas experienciam crescimento pessoal e outras não)?

Factores individuais tais como características de personalidade, sistema de crenças e ajustamento psicológico prévio podem contribuir para uma maior ou menor adaptação quando as pessoas se deparam com a fibromialgia.

Pessoas optimistas e com esperança em enfrentar situações exigentes têm mais possibilidades de vivenciar mudanças positivas, uma vez que estão mais predispostas a desenvolver iniciativas com vista a ultrapassar as dificuldades. Affleck & Tennen (1996) verificaram a existência desta relação num estudo que desenvolveram junto de doentes fibromiálgicos.

Além disso, a interpretação que uma pessoa faz de um determinado acontecimento influencia a sua reacção em termos emocionais e comportamentais. Isto é, se uma pessoa interpretar a fibromialgia e as suas implicações como uma situação desafiante e não unicamente ameaçadora, visualizará a possibilidade de obter resultados positivos o que a ajudará a alcançá-los de facto.

A crença de controlabilidade é também importante na medida em que se o doente acreditar que controla os acontecimentos e que não é totalmente controlado por eles, irá assumir uma postura activa perante a vida, não ficando passivamente à espera de ser dominado por situações sobre as quais até pode ter algum controlo.

Algumas crenças prévias como, por exemplo, “o mundo é justo” e “há coisas que só acontecem aos outros” podem dificultar a aceitação da doença por parte do doente fibromiálgico, uma vez que o surgimento da doença é incompatível com essas mesmas crenças. No entanto, se a pessoa conseguir atribuir novos significados às suas experiências de vida (ex: aceitar que qualquer ser humano pode ser atingido pela doença) podem surgir mudanças positivas na sua vivência do dia-a-dia, apesar das limitações impostas pela doença. A partir daí estará mais preparada para aceitar e lidar com acontecimentos potencialmente geradores de stress (ex: perda do emprego).

Porém, não é possível compreender as diferenças emocionais e comportamentais face à fibromialgia atendendo apenas a factores de natureza individual. De facto, os factores de natureza contextual desempenham um papel extremamente importante e interagem reciprocamente com os factores individuais. Uma pessoa não vive à margem de condições económicas, culturais, familiares. Em particular, o apoio fornecido pela rede de relações na qual o doente se encontra inserido desempenha um papel significativo no bem-estar deste. Obviamente que ter uma família que não compreenda o sofrimento do doente, um patrão que julgue que o funcionário não quer trabalhar, não vai permitir a criação de condições que permitam ao doente minorar o seu sofrimento em termos físicos e emocionais.

No entanto, a sensibilização da sociedade em geral para a doença começa já a ser uma realidade, nomeadamente pela divulgação da mesma nos meios de comunicação social, o que poderá vir a facilitar que muitos dos constrangimentos com os quais os doentes se deparam actualmente venham gradualmente a ser ultrapassados.

Portanto, apesar da dor, sofrimento e desespero é possível lidar com a situação de modo eficaz, de forma a verificar-se uma melhoria na qualidade de vida dos doentes e daqueles que os rodeiam.

 

Dra. Paula Oliveira – Psicóloga.

 

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