Fibromialgia e exercício físico – um Conceito – uma Vivência – Fernanda Margarida Neves de Sá
Muito se tem escrito
ao longo dos anos sobre este tema.
Contudo, deixo aqui
duas perguntas:
§
Qual a
relação entre a teoria comprovada cientificamente e uma patologia sobre a qual
pouco se sabe e nada se prova?
§
Daqueles que afirmam, quantos comprovam, através da sua experiência pessoal como
doentes fibromiálgicos?
Com toda a humildade
perante os conhecimentos científicos que nos têm chegado e revelado diversas
teorias perante as quais curvo a cabeça nos conceitos demonstrados, não posso,
contudo, estar de acordo com tudo aquilo que se pensa estar genericamente
provado como correcto, quando o mesmo se direcciona para uma patologia que, até
há bem pouco tempo, nada tinha de objectivo, conhecida a sua origem e muito
menos subjectivamente compreendida.
Há estudos em curso,
conclusões encontradas. Nós, doentes, aguardemos com Fé e Esperança, que as
mesmas possam ser provadas e oficialmente reconhecidas.
Como doente
fibromiálgica há mais de dez anos, professora de Educação Física e com o mínimo
conhecimento de fisiologia muscular e programas de treino, têm-se-me deparado,
perante a sintomatologia da fibromialgia e o trabalho muscular cientificamente
aconselhado como correcto, verdadeiras contradições aparentemente
incompreensíveis, obscuras componentes e resultados práticos sem sentido ou
qualquer lógica.
O imprevisível ou o insucesso podem surgir
Tal qual como a
própria patologia em causa, contrariam, por vezes, tudo aquilo que, como certo,
nos é transmitido.
A fibromialgia apresenta diversos tipos e graus de dor
Enquanto que uma
pequena imobilidade articular e leve sensação dolorosa matinal tende a
desaparecer ao longo do dia, de acordo com um crescente trabalho muscular de
pequena carga, há diversas outras sensações dolorosas, as quais, devido à
elevada intensidade, provocam uma total ou quase total imobilização,
impossibilitando qualquer tipo de actividade e uma total desmotivação para
qualquer desenvolvimento laboral ou dinâmica muscular.
Nestas situações,
são indispensáveis a compreensão e apoio familiares, para que mais rapidamente a
crise seja diminuída, sem passagem por distúrbios emocionais graves, os quais
podem provocar autênticas perdas de controle e/ou quebra do tónus muscular, só
ultrapassáveis, muitas vezes, ao recurso dos serviços de uma urgência
hospitalar.
Perante as
dificuldades encontradas nas diversas situações diárias, consequentes estados
dolorosos e uma inexplicável exaustão, uma das teorias encontradas e que mais
facilmente se pode compreender e “encaixar” como uma das prováveis causas do até
hoje desconhecido e incompreendido, pode ter a ver com uma deficiente
funcionalidade dos neurotransmissores e os respectivos estímulos chegados ao
cérebro, multiplicados num número de vezes superior ao real.
De facto, tudo aquilo
que até uma altura da vida era uma carga imperceptível, passou a reflectir-se
como um elevado peso e incompreensível esforço.
Assim, pequenas
funções para uma pessoa normal, para um doente fibromiálgico são traduzidas ao
longo do dia, dos meses, dos anos, em esforços tão elevados que parecem provocar
constantes e verdadeiras rupturas musculares.
Uma simples e
agradável caminhada pode, por vezes, transformar-se numa verdadeira maratona...
A consciência, a objectividade que o doente ainda consegue ter, permite-lhe “ver”
que o que faz, a carga desenvolvida não justifica tão elevado transtorno.
O cérebro comanda, o
corpo não permite a obediência correspondente. Daí o desespero, o desequilíbrio
emocional, o desânimo perante tudo e todos e que mais não reflecte senão a
revolta perante o inexplicável.
Sem poder nem querer
entrar no campo clínico e muito menos científico, de uma forma simplista, posso
testemunhar, apenas com a sensibilidade de doente, que há quem afirme que um
doente fibromiálgico é hiper-sensível à dor. Perante o atrás exposto e no qual
acredito, posso considerar que, pelo contrário, o mesmo doente é
hiper-resistente à dor. Considero, isso sim, hiper-sensível aos ESTÍMULOS
encontrados, pelos motivos já atrás justificados.
Mais uma vez apenas
como doente, tenho entendido que o elevado estímulo traduzido nos receptores
cerebrais e os estados permanentes de profunda exaustão sem a devida
correspondência real, são incompatíveis com o racional, provocando o
desenvolvimento de uma luta a ser travada diariamente para que um mínimo de
funcionalidade seja mantida.
Sem apoio, sem
credibilidade, o doente, sem nada de objectivo que possa provar a sua dor
violenta, tenta insistentemente e de uma forma sobre-humana lutar, para que tudo
e todos os que mais próximo com ele convivem se mantenham minimamente estáveis.
Quantos conseguem?
À custa de que?
Sofrimento, destruição humana, ruptura, desistência de tudo aquilo que toda uma
vida tentou conservar como dos mais altos valores se tratassem e por fim o
isolamento cruel e a abnegação total de tudo o que existe à sua volta.
Depois, o conformismo
perante a realidade encontrada e nunca desejada, como se de um “louco” ou
“marginal” se tratasse.
A procura de algo que
possa substituir tudo aquilo que vai ficando para trás, a busca de um objectivo
a atingir em prol de uma sobrevivência minimamente saudável.
A formação humana de
cada um e desenvolvida ao longo dos tempos emerge e a vontade de uma dádiva, de
uma entrega, surge mais intensamente que nunca.
Nem sempre um doente
consegue, sozinho, atingir esta alteração em toda a sua vivência sem que todo o
seu estado emocional e psíquico seja drasticamente abalado. Daí a necessidade de
um apoio clínico devidamente especializado.
Os doentes procuram,
então, encontrar-se entre si. Falam a mesma linguagem, uma nova forma de vida se
instala e... A Vida continua!
Diferente, mas
continua sempre sob uma capa de esperança de que a vida de outrora possa
ser reconstruída um dia, retomada no seio de tudo e de todos aqueles que nunca
deixamos de amar e foram ficando para trás... O “interregno” forçado, vamos
acreditar, não será irreversível!...
Entrando especificamente
na necessidade de movimento de um doente fibromiálgico, começo por distinguir os
diversos graus que definem a patologia:
§
Um
doente que tenha de onze a treze pontos GOLGI afectados, penso que possa ter
possibilidade de seguir tudo aquilo que mundialmente e cientificamente defende;
§
Um
doente com grau médio começa já a ter algumas dificuldades na concretização
objectiva e regular das teorias defendidas. Começa a ter necessidade de uma
adaptação diária, caso a caso, perante tudo aquilo que lhe é transmitido.
§
Um
doente com grau máximo de fibromialgia, com um elevado grau de incapacidade
consequente, ser-lhe-á praticamente impossível colocar em prática o programa de
treino tão insistentemente proclamado, pelo menos numa primeira fase de
adaptação à doença e na qual ainda não estão criadas alterações necessárias a
uma nova fase de vida.
Sem recursos
económicos suficientes para a obtenção de toda uma alteração nos hábitos e ajuda
nas tarefas diárias e obrigações profissionais e/ou familiares, dificilmente
poderá ser atingida uma melhoria da qualidade de vida destes doentes. Entra aqui
e apenas, a ajuda clínica e respectivos fármacos como única alternativa.
Assim, manter-se-à,
de uma forma desumana e cruel, todo um circuito vicioso de uma forma de vida em
que a obrigação social e familiar é imposta sem que haja correspondência a uma
capacidade orgânica adequada.
O doente acaba por
criar uma “adaptação” à dor, reduzindo, drasticamente, toda a sua objectividade,
capacidade de raciocínio, diálogo e compreensão.
Tentar transmitir
“teorias” e conselhos práticos de movimento a estes doentes, a aceitação é,
quase sempre, reduzida.
Contudo,
penso existirem quatro máximas a serem seguidas:
I.
Imobilidade Nunca!
II.
Escolher uma actividade que dê prazer.
III.
Periodicidade orientada individualmente.
IV.
Sem violência no esforço a desenvolver.
O doente
fibromiálgico convive, quase sempre, com uma sensação de um estado gripal. O seu
corpo parece atingir temperaturas elevadas, só que o termómetro não acusa!... A
tendência natural é de permanecer deitado, dado o mau estar generalizado.
É nesta fase que a
necessidade de uma informação correcta e apoio ao doente se tornam mais
urgentes.
Se os músculos não
forem activados, tendem a reduzir a sua funcionalidade.
Dia a dia, a
paralisação parcial ou total pode surgir e mais rapidamente ainda devido às
dores inerentes à própria patologia e consequências psicossomáticas.
Há que chamar
oxigénio a toda a massa muscular dorida, ao própria cérebro, para uma melhor
funcionalidade e redução da sintomatologia da dor.
Para isso, começa
aqui a necessidade premente de um conhecimento profundo do que sentimos, das
características da doença que padecemos e como minorar os seus efeitos, partindo
de uma vontade férrea de melhorar a qualidade de vida a que temos direito.
Sempre fomos activos,
perfeccionistas, não sabíamos parar perante o cansaço...
Hoje sentimos que já
não somos os mesmos e a compreensão da mudança não surge através de razões
objectivas.
Há que reconhecer,
compreender e aceitar que agora somos doentes!
A nossa vida terá que
ser alterada!
Como é bom sabermos
do que padecemos, o nome da nossa doença!...
Como é bom sabermos
que já existem milhares de pessoas, médicos, governantes que acreditam na nossa
dor e trabalham para, de uma forma ou de outra, nos poderem ajudar!
Lamentavelmente, a
realidade do nosso país ainda é deveras dramática para a maioria dos doentes
fibromiálgicos.
Teoricamente, um doente para minorar a sua dor e melhorar
a sua qualidade de vida, teria que:
§
Não ter
obrigatoriedade de horários para qualquer tipo de tarefas diárias. Não ser a
cabeça e sua orientação a “comandar” essas tarefas, mas sim a disponibilidade
orgânica, dia a dia, hora a hora;
§
Manter
uma actividade diária, uma “meta” a atingir, mas com um mínimo de compromisso ou
“stress” emocional, sendo a mesma devidamente doseada e fraccionada ao longo do
dia. Parar e repousar (sentado ou deitado), sempre que o organismo o solicite;
§
Nunca
continuar teimosamente uma tarefa sob a sensação de dor ou extremo cansaço
físico ou emocional. È essencial o conhecimento do seu próprio limite através
dos pequenos “sinais” que vão surgindo (tonturas, falta de visão, tremuras,
inchaços nas extremidades do corpo, irritabilidade, etc.).
Por vezes, uns
minutos de absoluto repouso com ausência total do mundo em redor, podem ser o
suficiente para a retoma da normalidade funcional física e psíquica.
A existência da
possibilidade de um “cantinho” só nosso para esses momentos é fundamental.
Procurar ajuda para as tarefas mais difíceis de um doente
fibromiálgico:
Pequenas cargas de
longa duração como sejam:
§
Estender roupa, arrumá-la em cabides ou em gavetas, dobrá-la, fazer camas,
limpar pó, varrer, descascar ou lavar legumes, vestir ou dar banho a uma
criança, arrumar papeis ou dossiers, folhear, bater teclados com braços
estendidos, arrumar livros, etc....
É notório como se
tornam as tarefas mais fáceis e menos dolorosas, desde que seja possível
efectuá-las com os braços junto ao corpo, tentando mover apenas antebraços e
mãos.
A ausência de
posturas estáticas, regulares mudanças de posição e evitando movimentos de
grande amplitude, podem também minorar as dificuldades do doente.
As extremidades dos
membros são, por vezes, muito atingidas, provocando dor e formigueiros,
dificultando tarefas ainda que mais simples. Há que aguardar, pacientemente,
que esta situação seja ultrapassada, ajudando com pequenos movimentos de
contracção e alongamento dos dedos.
Não violentar o
aparecimento do sono
Aceder ao mesmo
sempre que o organismo o solicite, nem que seja por poucos minutos. Esta atitude
contribui para uma diminuição da ansiedade e retoma, por vezes, a possibilidade
de uma funcionalidade mais normal.
Procurar “desligar” de tudo o que incomoda, aprendendo uma nova forma de estar,
ou seja, aprendendo o que talvez nunca fizera antes: “olhar para o seu
próprio umbigo”...
Tentar alhear-se de
possíveis incompreensões familiares e/ou profissionais. Tente entender que
também os que nos rodeiam sofrem com todas as alterações de que somos vítimas.
Se ainda não o fizeram, um dia aprenderão a dar--nos a mão...
Procurar ambientes quentes
O frio provoca
contracção muscular. Logo, aumento da sensação da dor. Porém, cuidado, o calor
excessivo provoca exaustão.
Fazer uma alimentação racional
Procurar ingerir
grande quantidade de legumes, fruta, cereais, muitos líquidos, principalmente
água, mais peixe e pouca carne, principalmente vermelha. Evitar cabrito,
bacalhau, marisco, fritos, enchidos, comida tradicional portuguesa em geral, ou
seja, tentar reduzir tudo o que concentra elevado teor de toxinas.
É fundamental que não exista excesso de peso
A acumulação de
adiposidade sobre a massa muscular e fibrosa agrava a potencialidade da sensação
dolorosa de um doente fibromiálgico, assim como dificulta a locomoção.
Usar vestuário leve, flexível
Todo o vestuário que
provoque compressão não é aconselhável. Dar preferência a roupa solta e tecidos
suficientemente elásticos.
É fundamental que uma
doente fibromiálgica não use alças de soutiens que pressionem a parte mediana
dos ombros. É precisamente nesse local que estão situados dois pontos gatilho
que irradiam sensações dolorosas para as costas e braços. Deslocar as alças
sobre os braços ou a utilização de alças anatómicas, acolchoadas, será o ideal.
O calçado é muito importante
Preferir saltos
baixos e um número acima do anteriormente usado, pode facilitar a locomoção. Dar
preferência a sola maleável e de borracha. Se possível usar palmilhas interiores
de material macio, de forma a amortecer o peso do corpo durante a caminhada.
Caso a caso, momento
a momento, o calçado é um elemento importante a ser escolhido, sem contrariar
as necessidades orgânicas e comodidade do doente.
ACTIVIDADE FÍSICA:
QUE
FAZER? COMO ESCOLHER?
Se um doente
fibromiálgico tem possibilidade sócio-económica de seguir o que atrás está
descrito, poderá ter um leque variado de escolha para a actividade física do seu
dia a dia.
Contudo, há uma regra
fundamental:
§
Nunca fazer algo só porque alguém fez!
Pense, escolha de
acordo com o seu próprio gosto, capacidade orgânica e vivências anteriores:
§
Deverá
optar pela actividade que lhe proporcionará maior prazer.
§
Frequência e dose da carga funcional será o seu próprio organismo que deverá
comandar. Sem esforço, sem cansaço e sem dor.
§
Conheça
a sua própria limitação, até onde ir e pare no momento certo.
Temos
assistido a muitos e variados conselhos sobre quais os exercícios físicos que
deve fazer um doente fibromiálgico.
Vamo-nos
debruçar sobre algumas hipóteses:
NATAÇÃO:
Penso ser uma
actividade benéfica, desde que em água quente e sob uma progressão lenta, com um
maior número de expirações dentro de água, fazendo uma técnica de inspirações
mais reduzidas.
Isto, para quem sabe
executar o processo de respiração aquática, podendo, assim, diminuir o esforço.
Se possível, com mergulho e elevada apneia, de forma a que haja o mais reduzido
esforço orgânico, tirando partido máximo da submersão do meio aquático.
Tal qual como um feto
no ventre materno...
De acordo com o
estado do doente no momento, esta situação poderá ser intensificada na carga e
duração, mas nunca com demasiado esforço.
A actividade
executada e inserida numa classe de pessoas saudáveis e sob orientação conjunta,
não permite o controlo e doseamento individual do doente. Pode provocar exageros
não controlados, cansaço e frustração final, com o afastamento consequente da
actividade.
Aqui e mais uma vez,
o trabalho individual é o mais aconselhável. Flutuar, brincar debaixo de água. O
prazer continua a ser a máxima.
HIDROGINÁSTICA:
O que é
hidroginástica? Como o próprio nome indica, ginástica dentro de água.
Os exercícios físicos
dentro de água provocam uma carga orgânica três vezes superior ao real,
ou seja, são três vezes mais violentos que fora de água.
Quem pretende elevar
a sua performance é uma actividade aconselhável, mas para uma pessoa saudável.
Perante qualquer
movimento com a mais reduzida amplitude, terá que vencer a pressão da
água, não usufruindo apenas da impulsão que a mesma oferece. Para um
doente fibromiálgico a carga executada é demasiada, provocando elevadas
solicitações musculares e consequente cansaço exagerado. A dor posterior será
provavelmente a consequência mais certa.
No meu entender, é
fabuloso tirar partido, sim, dessa mesma impulsão que a água oferece, mas tal só
será possível através de movimentos descontraídos, sem amplitude, com imersão
absoluta. Recreando, apenas.
Lentamente, com
gosto, poderá vir a intensidade sem esforço. Imagine-se a subir escadas, a
apanhar objectos no fundo, movimentos rotativos com o próprio corpo,
alongamentos, espreguiçando-se dentro de água...
Penso que nada disto
será aconselhável para um doente que nunca nadou nem gosta de água.
Mais uma vez, o
prazer acima de tudo. Imposição nunca!
TRABALHO
AERÓBIO:
O trabalho aeróbio é
todo aquele que é executado sem défice de oxigénio, tendo como finalidade um
aumento de capacidade da captação do mesmo.
O que vulgarmente se
apelida de “Ginástica Aeróbica”, praticada em ginásios, nem sempre garante a
mesma orientação e mesma finalidade, caindo-se, muitas vezes, em trabalho
anaeróbio, ou seja, com défice de oxigénio e consequente acumulação de ácido
láctico nos tecidos musculares.
Como se sabe é, esta
substância, uma das responsáveis pelo aparecimento da dor.
Deverá existir uma
aprendizagem de um conjunto de exercícios orientados para uma correcta
oxigenação do músculo dorido, a qual pode ser conseguida, por exemplo, através
de inspirações profundas localizadas sectariamente, expirações mais prolongadas
que as inspirações, movimentos leves e sem amplitude, “vibrações” musculares
localizadas e parcelares, alongamentos em posição de pé ou deitada
(espreguiçar), seguidos de enrolamentos ventrais (posição fetal) extensões e
relaxamentos diversos.
Para uma mulher é
fácil entender o atrás exposto, tendo como exemplo a aprendizagem da respiração
abdominal, utilizada para facilitar e diminuir as dores do parto.
Dentro deste trabalho
aeróbio, aconselha-se, fundamentalmente a MARCHA.
Mais longa, menos
longa, com maior ou menor intensidade, um doente deverá controlar a intensidade
da carga e duração utilizadas.
A subida ou descida
desta capacidade é oscilante.
Considero, contudo, ser a
única actividade que pode e
deve ser sempre praticada e comum a todos os
doentes fibromiálgicos.
Preferência ao ar
livre, com o mínimo de poluição: Jardins, beira-mar, beira-rio, etc...
Depois deste ou outro
qualquer trabalho é fundamental um período bem orientado de exercícios de
relaxamento, com tentativa de um total alheamento de tudo o que o rodeia
(relaxamento emocional) e tentar, fraccionadamente, “esquecer” as diversas
partes do corpo, deixando-as “mortas”... Para este espaço não deverá haver
limite de tempo!...
Penso ser
indispensável que monitores e professores de educação física que possam ter sob
sua orientação, em academias e ginásios, doentes fibromiálgicos, poderem
agrupá-los de acordo com as vivências anteriores de cada um, necessidades e
limitações, procurando, acima de tudo, um estudo e conhecimento profundo sobre a
patologia.
CARDIO-FITNESS:
Considero que a
maioria dos aparelhos utilizados convidam a posições “difíceis” para estes
doentes, fazendo com que o conjunto de músculos solicitados em simultâneo
provoquem de imediato um trabalho exagerado e consequente exaustão.
O tapete rolante, sem elevação e em ritmo lento poderá
ser o único aparelho a ser utilizado.
Na falta da caminhada
ao ar livre, poderá, minimamente, substituir a mesma. Contudo, não é comparável
o benefício a nível psicológico desta substituição, factor extremamente
importante nestes doentes.
MUSCULAÇÃO:
Penso não ter
qualquer interesse, podendo mesmo poder ser extremamente prejudicial quando não
existe qualquer tipo de preparação anterior.
Isto, se estivermos a
falar de máquinas ergométricas existentes nos ginásios.
Para um doente que
durante toda a sua vivência anterior esteve inserido neste tipo de trabalho,
poderá, com as devidas precauções e adaptações no tipo de carga usada e duração
da mesma, continuar com o que sempre lhe provocou prazer.
Contudo, temos
conhecimento que atletas de alta competição e com um desenvolvimento muscular
elevado, não conseguem manter este tipo de actividade.
O problema não está
no benefício que para qualquer ser humano significa o desenvolvimento muscular.
O difícil é um doente
conseguir desenvolver um trabalho sem correr o risco de provocar graves lesões
ou rupturas musculares.
Por ter já
experimentado, com toda a minha força interior, todo o tipo de trabalho
recomendado nas diversas teorias encontradas, posso testemunhar que o resultado
deste trabalho é negativo!
Posso garantir que a
“factura” a pagar é bem alta, pela teimosia em obedecer a todos aqueles que
sabem mais do que eu, mas... Não são doentes fibromiálgicos!...
Há, contudo,
situações pontuais diversas que poderemos concretizar sem graves riscos, desde
que a situação de momento o permita:
Pegar uma, duas
vezes, em algo que nos é pesado. Levantar e pousar. Mais tarde repetir, ao longo
do dia, pontual e fraccionadamente, não permitindo que os nossos músculos
“adormeçam”!...
DANÇA:
Desde que goste de
dançar e consiga fazê-lo com um total relaxamento muscular, sem qualquer foco de
contracção sectorial, é Excelente!
Aproveite os dias
“bons” para fazê-lo.
Descontrai, provoca
uma boa oxigenação generalizada e uma óptima oportunidade para uma maior
aproximação social. Mas, como tudo, nada de exageros!...
Tente VIVER
bem e ser feliz! Um doente fibromiálgico tem momentos com
possibilidades de sê-lo. Não os deixe fugir, saiba aproveitá-los. Saudavelmente!
Verificará que vale a pena!
CONCLUSÕES:
A fibromialgia,
embora com diversas características, tem, contudo, um conjunto de sintomas
comuns a todos os doentes.
As limitações
encontradas, os tipos de dor, as dificuldades do sono, os diversos “picos” ou
distúrbios emocionais, a linguagem e respectiva descrição da patologia e
dificuldades encontradas, fazem parte de um verdadeiro “ dossier” comum a
todos.
Vindas de todas as
partes do mundo, ouvem-se vozes, que nunca se conheceram, a falar a mesma
linguagem, transmitindo as mesmas dificuldades, reproduzindo um mesmo conceito
de DOR.
As frases saiem em
corrente como que de um mesmo leito de rio se tratasse!...
Contudo,
o factor social e as diferentes capacidades económicas que rodeiam os doentes
fibromiálgicos, suas possibilidades ou não de uma profunda alteração de toda uma
postura profissional e/ou familiar, podem provocar uma evolução positiva ou
negativa da doença, contribuindo ou não para uma melhoria da qualidade de vida
de cada um.
Posso falar com
conhecimento de causa, na medida em que, desde Maio de1999, ouvi já milhares de
vozes em sofrimento, verdadeiro desespero e desistência da própria vida.
Com que força vamos
aconselhar uma mãe, que teve de deixar de trabalhar devido à dor intensa do seu
corpo e possível paralisação parcial ou total, abandonada pelo marido e/ou
outros familiares, porque foi considerada “preguiçosa”, “fingida”,
“desequilibrada”, sozinha, com filhos menores aos quais nem consegue ajudar a
vestir, dar banho, confeccionar os seus alimentos, sem qualquer rendimento
porque a situação de suspensão temporária ao serviço acabou, sem qualquer outra
subsistência económica, porque não existe ainda legislação que a
proteja!...
Procura, ainda,
outras possibilidades de fontes de rendimento que a sua doença possa permitir e
suportar e não encontra...
§
Que
fazer?
§
Vamos
aconselhá-la a sair, caminhar, correr, nadar, fazer muito exercício físico?
§
Vamos
aconselhá-la a trabalhar?
É desumano! É cruel
demais!!!
Que pensar, como actuar, perante aquelas tais “crises”
que todo um doente fibromiálgico tão bem conhece, de elevada incapacidade
funcional e psíquica?
Por muito que
tentemos encontrar “razões”, olhamos para trás e nada encontramos, nada
justifica com objectividade a tão falada e repetida sensação de “um
tractor ter passado por cima do nosso corpo”. Dor difusa, intensa
e com a sensação de queimadura ou nódoa negra generalizada.
Aí, sim, além do
indispensável repouso, os fármacos têm que dar uma ajuda.
É aqui que, através
das diversas tentativas necessárias caso a caso, (doentes reagem de forma
diferente a cada medicamento), com toda a sensibilidade e disponibilidade do
médico assistente e toda a confiança que ele nos deve merecer, tentaremos
ultrapassar mais um dos momentos difíceis.
Daí, eu pensar que,
talvez mais que noutra qualquer patologia, a escolha de um clínico devidamente
informado e a devida manutenção dessa escolha, poderá ajudar na pesquisa
e respectivo acerto químico no acompanhamento necessário a estes doentes.
É por vezes difícil
atingir a medicação adequada e só após diversas tentativas, caso a caso, é que o
nosso médico nos poderá ajudar.
Há que insistir, há
que informá-lo de todas as nossas dificuldades e alterações encontradas.
Ele também está a
aprender, lado a lado, connosco!
A posterior melhoria
será uma vitória de ambos.
Logo que um doente
fibromiálgico atinge conhecimento da patologia e como defender-se da mesma,
mediante as possíveis alterações de toda uma forma de vida já atrás descritas,
deve tentar reduzir, gradualmente, a dosagem dos fármacos utilizados.
Claro está, depois de
ouvir a respectiva opinião do seu médico e sempre com o acompanhamento do mesmo.
São toxinas que estamos a ingerir.
O ciclo vicioso
instala-se: Mais toxinas, mais dor, mais dor, mais toxinas.
O ideal é atingir uma
suficiente adaptação à dor e a todas as limitações que a patologia provoca.
Tentar recorrer a
fármacos apenas em situações de crise não controláveis.
Com repouso, com
ausência de stress físico e essencialmente emocional, tentar ultrapassar as
mesmas e voltar à situação inicial.
Não
esqueça:
§
Fraccione todas as suas tarefas
diárias, de forma a que um cansaço extremo nunca seja encontrado.
Como quase
todos os doentes fibromiálgicos, senti na carne o peso do descrédito,
das rupturas sócio-económicas e do abandono.
Como todos, senti a
dor que reflecte a frase “sempre fui muito activa” e a certeza de que
nunca ousáramos parar perante qualquer tipo de obstáculo.
Como todos, senti a
mágoa perante a dúvida daqueles que nos rodeiam e que mais amamos, de que a dor
fosse, realmente dor.
A adaptação forçada a
uma nova forma de vida nunca desejada, a angústia de perdas de toda a ordem, a
ocultação imposta de sentimentos, porque: “não queremos incomodar”!...
Tudo tem que ser
transformado no íntimo de um doente fibromiálgico numa dádiva de AMOR,
numa entrega ao próximo sem interesses, numa tentativa de, através dessa
capacidade, poder transformar toda a nossa capacidade física de outrora numa
grandiosa entrega humana.
Ao
darmos a nossa mão, a nossa força aumenta e ajudar-nos-emos a nós próprios!...
Quero
acreditar que o meu país vai evoluir!
Quero
acreditar que a união vai fazer a nossa força!
Quero
acreditar que um dia a dor e a exaustão vão sair o nosso corpo!
Quero
acreditar que, um dia, sem máscara, o nosso rosto voltará a SORRIR!...
= DOR =
A
dor é dor se se sente.
A
dor é alegria se se esquece.
É
prazer, é força, é vontade
De
caminhar em frente e sorrir.
É
amar, é criar, progredir...
Sofre o fraco, o destruído, o impuro.
Sofre aquele que nada dá...
Sofre aquele que nada tem dentro de si...
Dor
é acreditar
Na
mentira que se sente,
Na
força de um querer
Que
a dor não seja dor...
Há
dor e dor...
A
verdade desta dor
Queima, destrói e permanece.
Nada
nem ninguém este corpo aquece...
O
tempo passa e não acalma...
Amor, ternura, força, tudo enfraquece.
Não
é abandono, não é alma ou desamor...
É
matéria, é aperto, é um estado morto.
É
tudo que dói e é só corpo!...
É o
riso do palhaço que chora.
Funciona, representa, por dentro implora!...
É o
desamparo, é o zumbido do descrédito.
É a
incerteza da ciência.
A
procura do nada, por não ser certo...
Dor
é a dor que não mente,
Sentir a dor que é mesmo dor!...
Quero sentir que não se sente
A
dor que persiste em ser dor!...
Fernanda
Margarida Neves de Sá
Presidente da Direcção da APDF
(Associação Portuguesa de Doentes com Fibromialgia)
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