Artigo de opinião - Dr. Sanches Silva
Dor, cansaço, sono não reparador, depressão, múltiplos exames, múltiplas consultas e está tudo normal. Mas as queixas mantêm-se meses, anos... no trabalho, em casa, com os amigos, deixamos de ser quem éramos e as pessoas duvidam de nós.
Pior, nós próprios duvidamos de nós!...múltiplos tratamentos e as dores continuam e o cansaço e muitas vezes a incompreensão por quem nos rodeia, por quem nos trata...
Há mais de 10 anos que ouvimos esta história clínica e, com grande probabilidade, tratar-se-á de um doente de fibromialgia - uma doença crónica caracterizada por dor generalizada, fadiga, sono não reparador, por vezes muito incapacitante e que, como todas as doenças crónicas, por vezes sabemos quando se iniciou, mas nunca sabemos quando ou se vai acabar. Doença mal compreendida, inclusive pela comunidade científica que procura respostas, aliás como para outras doenças crónicas. Como o caso por exemplo, de "enxaqueca", discute-se ainda, inclusive, em que especialidade médica a incluir, achamos, contudo, que ao doente "pertence" e ao médico- equipe de saúde que o está a tratar. Como em qualquer patologia crónica é fundamental o diagnóstico precoce e aí é fundamental a acção do médico de família, assim como a interacção com a família, o trabalho do doente e a equipa que o trata.
O doente fibromiálgico e porque a doença é multifacetada, muitas vezes necessita de um tratamento multidisciplinar, pelo que faz todo o sentido mobilizar uma equipe de saúde, assim como esclarecer os familiares do doente. Outra das características da doença tem a ver com a sua evolução e com as alterações de resposta às terapêuticas instituídas. Daí a necessidade do doente se auto-avaliar na sua evolução, cumprir estratégias delineadas em comum com o seu médico e da disponibilidade do próprio médico para responder com brevidade às queixas do doente, conhecendo-o o melhor possível.
Também é fundamental não esquecer que o doente de fibromialgia é passível, como qualquer outra pessoa, de desenvolver outras doenças e estar atento a sintomas novos e a não descurar as rotinas.
Neste momento, a fibromialgia é uma doença que não tem cura mas que tem tratamento e, quando bem orientada, pode levar a melhorias substanciais na qualidade de vida desses doentes.
No fundo, , como em qualquer doença crónica, é fundamental que o doente e todos aqueles que o rodeiam aceitem e compreendam as suas limitações. Que haja uma grande "cumplicidade" entre a equipe de saúde e o doente e que este esteja disposto a colaborar, no sentido de, em conjunto, empreender estratégias de tratamento.
Dr. Sanches Silva
(Médico especialista em medicina geral / familiar) |